Distopias ganham força na literatura ao refletirem medos e desafios do mundo atual

Pesquisador analisa obras brasileiras e argentinas e aponta que autoritarismo, desinformação, violência e crise ambiental estão entre os temas que impulsionam o crescimento do gênero.

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Em um cenário marcado pelo avanço da desinformação, pela polarização política, pelas crises ambientais e pelo fortalecimento de discursos autoritários, a literatura distópica tem ganhado cada vez mais espaço ao retratar futuros sombrios que dialogam diretamente com problemas do presente. Essa é a área de pesquisa do professor Antonio Rediver Guizzo, docente do Programa de Pós-Graduação em Literatura Comparada, que estuda a produção de obras distópicas no Brasil e na Argentina.

Segundo o pesquisador, a partir dos anos 2000 o gênero passou a ganhar força nos dois países como uma forma de representar questões sociais que já não encontravam espaço suficiente na narrativa realista tradicional. Para ele, muitos autores passaram a recorrer a elementos das distopias e do terror para abordar estruturas de violência presentes na sociedade contemporânea.

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Entre as obras analisadas por Guizzo estão Reprodução, de Bernardo Carvalho, e Luxúria, de Fernando Bonassi. Embora não sejam classificadas como distopias, ambas apresentam elementos que dialogam com o gênero. Em Reprodução, publicado em 2013, um personagem envolvido com teorias conspiratórias e notícias falsas antecipa debates que se tornariam ainda mais presentes com o crescimento das redes sociais. Já em Luxúria, Bonassi aborda os impactos do consumo e da ascensão social sem consciência crítica, levantando reflexões sobre desigualdade e comportamento político.

Para Guizzo, a literatura é um reflexo das condições históricas e sociais de seu tempo. Ele explica que a distopia pode ser compreendida como o oposto da utopia, conceito criado pelo filósofo inglês Thomas More para representar uma sociedade ideal. Enquanto a utopia simboliza um lugar perfeito, a distopia apresenta um cenário marcado pela opressão, violência ou deterioração social.

Antonio Rediver Guizzo

As referências clássicas do gênero, como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, construíram universos dominados por governos autoritários, sistemas de vigilância e mecanismos de controle social. Nas produções contemporâneas, esses elementos permanecem presentes, mas passam a dialogar também com temas mais específicos e atuais.

Entre os assuntos explorados pelas distopias recentes estão o feminismo, os direitos dos animais, o preconceito contra idosos, a degradação ambiental e outras questões sociais. Obras como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, Cadáver Exquisito, da argentina Agustina Bazterrica, Velhos Demais para Morrer, de Vinícius Neves Mariano, e Distância de Resgate, de Samanta Schweblin, exemplificam essa tendência.

Outro aspecto destacado pelo pesquisador é a mudança nos medos retratados pela literatura. Se em outros períodos predominavam receios ligados à religião, à natureza ou a elementos mitológicos, atualmente os temores estão relacionados a problemas sociais e políticos. Nesse contexto, as distopias funcionam como uma espécie de alerta sobre os rumos que a sociedade pode seguir.

Guizzo observa ainda que as narrativas contemporâneas aproximam cada vez mais seus cenários do cotidiano atual. Diferentemente das obras clássicas, que projetavam seus acontecimentos para décadas à frente, muitas histórias recentes descrevem situações que parecem possíveis em um futuro muito próximo.

Essa reflexão é apresentada no livro Histórias do Fim do Mundo – Como nascem as distopias?, resultado das pesquisas desenvolvidas pelo professor. Na obra, ele analisa a literatura distópica produzida no Brasil e na Argentina a partir de três eixos principais: autoritarismo e neoliberalismo, precarização do trabalho e degradação ambiental.

Para o pesquisador, a tendência é de crescimento do gênero nos próximos anos. Segundo ele, o cenário de instabilidade social e os desafios enfrentados pelas sociedades contemporâneas continuarão inspirando novas narrativas distópicas e de terror, utilizadas por escritores para representar medos coletivos, traumas e tensões do mundo atual.

Escrito por Emilly Delpino

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